A espiral do vôo da borboleta
O baile se bailava sozinho enquanto ela pensava. E pensava. Pensava lá e cá, feito uma adolescente que talvez jamais tenha sido, tentando decidir se iria ou não. E ele a convidou para dançar. Não era um príncipe. O que importava? Ergueu-se um pouco aflita, sem jeito em sua magreza, ainda naquela dúvida que lhe balançava a alma. Ora, é pouca coisa, só uma dança. E foi. Rodopiando sem graça em seu vestido lilás. Então se arriscou nas palavras: e disse palavras proibidas no ouvido de seu par. Disse assim bem depressa pra se envergonhar depois. E ele não se fez de rogado e apertou os quadris ossudos da dançarina indiscreta. Ele, homem. Ela, frágil. Corando como fazia tempo não sabia corar. E balançando o corpo num balanço tímido. Pensando com certa graça: velha também pode dançar. Ele de aliança no dedo. Casado. Mais proibido, mais vontade, e ela bem queria lembrar se ainda sabia mexer os quadris. Se ainda sabia fazer. Sabia. Ele queria se divertir e não se perdia em pudores. Prendia o corpo no dela, levou-a prum outro lugar. Ela sabia que aquilo era feio, muito feio, e por isso mesmo achava bonito de doer. Fosse ele mais atento teria notado no riso dela a melodia silenciosa de um vôo de borboleta, em espirais apressadas e coloridas, uma juventude fêmea. Sorte dela que ele não notou. Ou teria ele se apaixonado pelas espirais infinitas da juventude tardia e a convidaria para mais que um vôo. Ela, então, na pressa de aceitar o amor fácil, não teria tempo de aproveitar a tão recente solidão que lhe crescia e à qual, pouco a pouco, afeiçoava-se. Não saberia, então, a borboleta que era. Por isso foi tão feliz na dor da despedida. Sabia: nada mais que uma noite. O resto do tempo era dela. Inteiramente dela. “Velha, pois sim. De tanto tempo de vida, sou mais menina que antes.” E foi-se em espiral no vôo do riso livre. Borboleta.
por Carla Jaia
um vídeo que não é sobre esse texto, mas tem algo a ver.
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