Sobre o amor




“Deus é amor”, diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever este livro pensei que seu axioma* iria fornecer-me um caminho plano através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser assim chamado naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus. A primeira distinção que fiz foi portanto entre o que chamei de amor-Doação e amor-Necessidade. O exemplo típico do amor-Doação seria aquele que leva o homem a trabalhar, planejar e poupar para o futuro de sua família,cujo futuro ele não irá ver nem partilhar com ela; do segundo, aquele que empurra a criança solitária ou amedrontada para os braços da mãe.
[...]
[...] devemos ter cautela em dizer que o amor-Necessidade não passa de “simples egoísmo”. Simples é sempre uma palavra perigosa. Não há dúvida de que o amor-Necessidade, como todos os nossos impulsos, pode ser egoisticamente tolerado. Uma exigência tirânica e gulosa de afeição é às vezes algo terrível. Mas na vida comum ninguém chama de egoísta a criança que busca conforto na mãe; nem o adulto que procura “companhia” na pessoa de um amigo. Os que fazem isso em menor proporção, seja crianças ou adultos, não são geralmente os mais abnegados**. Onde o amor-Necessidade é sentido, pode haver razões para negá-lo ou mortificá-lo; mas não senti-lo é no geral a marca do egoísta frio. Desde que na verdade precisamos uns dos outros (“não é bom que o homem esteja só”), então o fato de este sentimento não surgir como amor-Necessidade no consciente (em outras palavras, o sentimento ilusório de que é bom para nós ficarmos sós) é um sintoma espiritual nega-tivo, da mesma forma que a falta de apetite é um sintoma médico negativo porque os homens precisam de alimento.
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*1 Princípio evidente, que não precisa ser demonstrado. 2 Máxima, sentença. 3 Norma admitida como princípio.
**1 Que, ou o que se sacrifica desinteressadamente por alguém ou alguma coisa. 2 Altruísta, desprendido.
"Continuo pensando que se tudo o que entendemos por amor é a ânsia de sermos amados, nossa condição é deplorável."
"Temos necessidade de outros no plano físico, emocional e intelectual; precisamos deles se devemos conhecer algo, até a nós mesmos."
Texto e citações de C.S Lewis em Os Quatro Amores.

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