Assim
É hora de recomeçar, antes do fim. Momento de reparar no sol, na cor do céu, permitir-se morrer, para pode renascer das cinzas do que fui, para viver a brisa que sempre sonhei em ser. Assim como a águia se retira para longe, se isola, e lá no alto da montanha gelada, fria e solitária, começa a se mutilar, arranca dela tudo o que é velho, tudo o que já passou, e sente dor, muita dor, mas como está isolada, ninguém a ve, ela não permite que ninguém a veja, assim ela bate o próprio rosto no chão para arrancar seu bico, arranca suas penas, sozinha, mas depois de tanta dor, sofrimento e solidão, a águia levanta a cabeça, fita o céu, azul e infinito e pensa: é tudo meu, estou pronta para novos desafios! E então mergulha num voo único, arrebatador, fecha os olhos e deixa o vento conduzir seu caminho. A águia voa livre, já não se lembra do passado, da dor, mas apenas olha pra frente, pois sabe que o que a espera é muito lindo, muito grande, para que o passado possa segurar ou destruir. Nada pode dete-la, pois está renovada, cheia de vida e sonhos. Assim sou eu, agredida por mim mesma, mutilada pela necessidade de se livrar de coisas velhas, assim sou eu isolada de tudo, no alto da montanha, tendo apenas Deus como amigo e observador. Assim sou eu, batendo o rosto no chão, deformando quem eu sou para poder seguir livre, voar novamente. Assim sou eu, cansada do passado, vivendo o presente mas com os olhos no futuro. Assim sou eu, procurando a palavra certa, o momento único... assim sou eu, morta, assim sou eu, mutilada, assim sou eu, mulher. Assim sou eu, animal, águia desesperada de dor, assim sou eu fitando o céu azul. Assim sou eu de cabeça erguida e todos poderão contemplar minha vitória, meu salto, meu voo, minha alegria. Assim sou eu, águia. Assim sou eu, ser humano, imperfeita, malvada, doce, insatisfeita, meiga que sabe perdoar. Assim sou eu doente, querida, infeliz, boa. Assim sou eu, velha, inocente, carente querendo amar. Assim sou eu errando, concertando, me explicando querendo mudar. Assim sou eu renovada. Criança brincando de ser feliz. E sendo. Porque na vida, tudo pode acontecer.Até ser feliz.Até ser compreendida, até ser amada. Até ser eu.
Julie F. de Pádua = eu

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