Fidelidade
Introdução
Ela não tem nome definido,
simplesmente é qualquer menina ou mulher por aí, pois no fundo somos todas
iguais. Desejamos ser abraçadas, ter o corpo todo beijado e acariciado. Acho
que já li algo assim em algum lugar, mas não importa.
Eu já inventei tantas personagens e
hoje me parece estranho não definir uma. Há tantas para nascerem...
Tantas histórias sendo escritas,
compostas, vividas...
Algumas tornam-se famosas e outras não
ousam sair da mente.
Estou mudando de assunto...
Eu estava falando sobre ela, queria
resgatar alguma personagem já criada, mas não me recordo os nomes, tenho
péssima memória, seria isso bom? Eu senti a inspiração apertar meu coração: há
algo para escrever hoje... Que sensação ótima! Saí em busca de algum notebook,
mas não consegui. Não poderia permitir que a inspiração fosse embora sem antes
dizer a que veio, então recorri ao modo mais clássico, arcaico e demorado para
escrever: papel e caneta.
Quem é ela? Tem história e não tem
nome...
Hoje em dia usam-se os nomes mais
improváveis para as histórias, nunca imaginei alguém com nome de fruta: Amora.
Novela tem dessas coisas.
Acabei de achar um nome para ela:
Yrina.
Eis a história:
Yrina tem fogo dentro de si. É
brava, ansiosa, fogosa, agitada, maluca, mas gosta de ficar só ás vezes, principalmente
quando sente falta do marido. Odiro é o nome dele. Viaja por muitos dias. Ele é
engenheiro civil. Sim, daqueles bons que põem a mão na massa. Mas não é qualquer
engenheiro, é o melhor. O mais caprichoso, o que cobra um preço justo, que atende
bem o seu cliente, o que chega primeiro e sai por último. É um homem bom e
bonito, apesar do trabalho duro sabe se cuidar. Perfeito ele não é, tem sim um
defeito: não pode gerar filhos. Uma dor forte em seu coração. Sendo assim Yrina
não tem filhos. A vida dela se resumi em ler, inventar receitas e postar no seu
blog, depois de testadas e aprovadas por ela e pelo marido, andar a cavalo,
ficar só, algumas atividades estranhas e morrer de saudade de seu homem.
Ele fica quinze dias no trabalho e
dez em casa. Esses dez dias são os melhores para ambos, mesmo depois de dez
anos de casamento, passam horas fazendo amor, um delirando com o corpo do
outro, tem corpos saudáveis, boa dieta e atividades físicas.
Yrina é viciada no cheiro de Odiro,
para ela poucas coisas são tão boas.
A fidelidade entre eles é um elemento
base para tanta paixão. O sexo é sempre bom e renovado. A distância só aumenta
o desejo e apimenta a relação.
Odiro tem muito dinheiro, trabalha em grandes obras, parceiro de engenheiros e arquitetos,
o cara é bom. Não importa o quanto ganhe ou que lugar tenha de trabalhar, de
quinze em quinze dias para sua amada deve retornar.
São tão ligados um no outro que o
resto, lá fora, na vida real, não importa. Deitar de corpo nú, um entrelaçado
ao outro, beijos, suspiros, carícias, suor, aromas...
Isso sim é o que a eles interessa.
A vida é sim dura, cheia de
desafios e isso não é diferente para esse belo e abençoado casal. A dor de não
ter filhos quase os separou, mas quer saber? Quando o amor vem para ficar, nada
separa, tudo supera. Assim deve ser o amor.
Yrina poderia sim adotar uma
criança, afinal tem tantas sonhando em serem adotadas, mas ela teme não
corresponder de forma adequada aos anseios de uma criança e no fundo o que ela
queria mesmo é um ser com olhos do pai e a expressão da mãe: Odiro e ela.
Então ela contribui mensalmente com
uma boa quantia em dinheiro com um orfanato da região, sua consciência está em
paz.
Outro motivo pelo qual ela evita se
prender a algo que exija muito dela é o medo de não se importar mais com Odiro,
deixá-lo em segundo plano para cuidar de filho, quantas mulheres fazem isso?
Muitas. Não há nada que ela faça com tanta intensidade que amá-lo, esse amor a
perturba, a intensifica, a escraviza a faz feliz.
Na ausência do marido ela se ocupa
com outras atividades, desconta seus sentimentos de raiva e revolta, por
questões que agora não vem ao caso, na cozinha, não pelo fato de comer, mas pelo
de cozinhar, sua segunda paixão. Ela mesma prepara as refeições dos empregados
da fazenda em que mora. Toda a ansiedade que sente pela vontade de estar com
seu amado ela aprendeu a descontar na academia, passa horas malhando, e no
final vale a pena, sempre. Quando se sente agitada ela anda a cavalo. Ama
cavalos, um animal silencioso, tranqüilo e poderoso. Toda sua maluquice ela
transfere para as receitas que cria. Yrina, apesar de tudo, conserva certa
solidão boa, gostar de ficar sozinha, mas tem momentos que não tem como segurar
então ela desconta esses sentimentos em apresentações sensuais na boate da
cidade, de quinta a domingo ela está lá. Quando o marido está em casa ela não
vai, lógico.
Como disse, ela gosta de ficar só,
só de langerie. Nua por completo não, isso é privilegio somente do marido.
Ninguém a toca, a possui, só ele. A fidelidade é um elemento base na relação
dos dois. Odiro é seu maior fã, acompanha os shows via internet.
Talvez você pense que é um casal
muito esquisito, mas isso não importa. O script dentro de uma relação nem
sempre é saudável, o pronto, o comum, o que todo mundo sabe não tem graça. A
paixão, o amor, o respeito, a fidelidade, a confiança e um pouco de safadeza
faz bem.
Yrina e Odiro: um casal que só é
feliz por se permitirem ser quem são.
11.7.13
By Julie de Pádua
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