Ore Especificamente - A cura das memórias - David A. Seamands

Ore Especificamente

Temos de ser específicos em nossas confissões e orações. Uma das grandes ênfases bíblicas é a necessidade de sinceridade moral completa ao enfrentarmos nossos pecados, defeitos e necessidades. Na primeira história da desobediência humana no Jardim, vemos como o homem se inclina a encobrir as coisas quando qualquer tipo de sofrimento emocional se acha envolvido na situação. Quando o Senhor Deus os procurou para ficar algum tempo em sua companhia como era Seu costume, Adão e Eva se esconderam da Sua presença entre as árvores do Jardim. Quando Deus chamou Adão, perguntando-lhe onde estava, ele respondeu: “Porque estava nu, tive medo e me escondi” (Gên. 3:8-10). Desde então os seres humanos têm temido ser sinceros e expor-se, não apenas diante de Deus, mas também de seus semelhantes e de si mesmos. Este medo que alcança proporções extremas em nossas personalidades decaídas e deformadas faz parte das memórias reprimidas que provocam sofrimento. Nós as encobrimos e ocultamos em lugar de confrontá-las. Essa dissimulação se insinua em nossa personalidade em todos os seus aspectos. Ela é a causa principal de nosso medo e culpa e, mais que tudo, prejudica nossos relacionamentos.

A receita bíblica para esta doença humana endêmica é sinceridade, franqueza, arrependimento e confissão. Jesus chamou o Espírito Santo de “Espírito da Verdade” (João 14-16). O apóstolo João usou a palavra verdade vinte e duas vezes em seu evangelho e nove vezes em sua Primeira Epístola. Em 1 João vemos uma ligação direta entre verdade, confissão e nosso relacionamento com Deus, com outros e conosco mesmos. Deixe-me explicar.

Séculos antes de o ramo do conhecimento que chamamos psicologia ter- se iniciado, João descreveu o que chamamos hoje de nossos mecanismos de defesa. Trata-se simplesmente das várias maneiras em que o homem evita enfrentar a verdade e se protege da ansiedade e do medo. Elas não mudam a realidade nem a verdade da situação; apenas modificam o modo de olharmos para os fatos. Nós nos protegemos enganando a nós mesmos, a fim de que não tenhamos de mudar. Vejamos as palavras do apóstolo João: Ora, a mensagem que da parte dele temos ouvido e vos anunciamos, é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, com ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso e a sua palavra não está em nós (1 João 1:5-10).

Vejamos agora como João e os psicólogos descrevem os três principais mecanismos de defesa. Eles são dados na ordem de sua gravidade.

• Negação. Este é o mais simples e mais direto deles. Apenas negamos algo; mentimos a respeito. Recusamo-nos a reconhecê-lo; não queremos olhar para ele nem discutir a seu respeito. João comenta sobre isto: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (v. 6).

• Racionalização. Este meio de defesa é mais complicado e, portanto, mais sério. Não é tão direto quanto a mentira, sendo mais sofisticado. Tentamos aqui dar razões que justifiquem nosso comportamento. Alguém disse que existem duas razões para tudo quanto fazemos: uma boa razão e a razão verdadeira! Não só enganamos a outrem, mas também a nós mesmos neste caso; é uma fraude mais profunda do que a negação ou mentira porque freqüentemente não temos consciência dela. João trata disso: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (v. 8).

• Projeção. Este é o pior de todos porque avançamos um pouco mais com o engano e culpamos a outros pelos nossos problemas. De fato, projetamos nossos defeitos em outra pessoa ou coisa e dizemos que o problema é deles. João descreve isto com grande exatidão: “Fazemo-lo (Deus) mentiroso e a sua palavra não está em nós” (v. 10). Embora a mentira tivesse partido de nós, acabamos por afirmar que foi Deus quem a disse. “Não sou o mentiroso, mas é Ele!”

Compreendo que esta passagem está colocada num contexto sobre assuntos morais e espirituais. Mas ela tem uma ligação definida com o nosso tema, pois seus princípios abrangem também os aspectos emocionais/espirituais da vida. Uma das razões para as memórias não-curadas nos perturbarem tanto é que elas contêm em geral muitas emoções negativas, tais como medo, mágoa, ira, culpa, vergonha e ansiedade. Esses sentimentos insistem em aparecer e ficamos imaginando de onde vieram. Nós nos sentimos confusos por não podermos determinar a sua causa. Isto nos faz sentir culpados, porque “os cristãos não devem ter tais sentimentos”. Acabamos não tendo apenas o problema, mas também a culpa por deixá-lo entrar em nossa vida. A dificuldade está no fato de sermos incapazes de orar especificamente a respeito. E como tentar fugir de um nevoeiro. Precisamos desesperadamente descobrir o ponto da necessidade específica, perceber qual é o verdadeiro problema a fim de tratarmos dele. O princípio envolvido aqui é muitíssimo importante: Não podemos confessar a Deus o que não reconhecemos para nós mesmos. Fazemos então confissões generalizadas, damos e recebemos perdão, também generalizado, e acabamos tendo um relacionamento nebuloso, indistinto, generalizado, com Deus.

Não queremos isto, mas em vista de uma porção de pontos específicos serem protegidos pelos nossos mecanismos de defesa e ocultos em nossas lembranças sepultadas, não conseguimos encontrar alivio emocional e espiritual contra os seus ataques. Temos necessidade de expor as situações, experiências e atitudes que estão provocando as emoções negativas e permitir que o Espírito Santo trate com elas especificamente. É justamente isto que acontece com frequência durante nosso período de oração para a cura das memórias. Em lugar de orações gerais “Ô Senhor, ajude-me a ter sentimentos melhores com relação a meus pais, ou faça com que eu perdoe meu irmão ou irmã”, a mágoa específica é mencionada em detalhe: “Ó Senhor, fiquei tão triste porque o papai jogou meu brinquedo longe e o quebrou porque eu acidentalmente derramei água em cima do seu livro, e depois ele riu de mim quando chorei. Fiquei com ódio dele na hora. Até me alegrei quando ele sofreu o acidente naquela tarde.” Ou: “Pai, acho que nunca perdoei completamente minha professora por ter-me humilhado naquele dia na frente de toda a classe, acusando-me de uma coisa que outro colega fez. Quis vingar-me de Ricardo por ter mentido para ela. Perdôo os dois pelo que me fizeram e peço que me perdoe, Senhor, por esses anos de ressentimento contra eles.” E assim por diante. Memórias especificas que tiveram finalmente permissão para subir à superfície, resultando em confissões específicas de sentimentos específicos; perdão específico dado e recebido, resultando em cura e purificação profundas e intimas. Este princípio de especificação é essencial para a cura das lembranças e está em perfeita harmonia com as verdades bíblicas relativas ao arrependimento, confissão e cura.

Trecho do livro "A cura das memórias" de David A. Seamands.

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