O Joio e o Trigo juntos até a volta de Cristo
A parábola do trigo e do joio
Leia Mateus 13.24-43
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A parábola do trigo e do joio, que ocupa a parte principal desses versículos, reveste-se de particular importância em nossos dias. Ela tem o propósito eminente de corrigir as expectativas muito altas que muitos cristãos têm quanto ao efeito das missões cristãs no estrangeiro e à pregação do evangelho em sua pátria. Que possamos dar, portanto, a essa parábola a atenção que merece!
Em primeiro lugar, essa parábola nos ensina que o bem e o mal sempre serão achados juntos na igreja, até o fim do mundo. A igreja visível nos é apresentada como um corpo misto. Trata-se de um “campo” vasto no qual crescem, lado a lado, o trigo e o joio. Devemos estar preparados para encontrar crentes e incrédulos, convertidos e não convertidos, os “filhos do reino” e os “filhos do maligno”, todos misturados uns aos outros, em todas as congregações de pessoas batizadas. Nem mesmo a mais pura e fiel pregação do evangelho conseguirá impedir esse estado de coisas, o qual tem existido em todos os séculos da Igreja. Tal foi a experiência dos primeiros pais da Igreja; tal foi a experiência dos reformadores; e continua a ser a experiência dos melhores ministros do evangelho, até hoje. Nunca houve uma igreja local ou assembleia cristã cujos membros fossem todos “trigo”.
O diabo, o grande inimigo de nossas almas, sempre teve o cuidado de semear o “joio”. A disciplina eclesiástica mais prudente e estrita não impedirá essa situação. Qualquer que seja a denominação, todas, igualmente, descobrem que é assim que se passa. Sem importar o que façamos para purificar uma igreja, jamais conseguiremos obter uma comunhão perfeitamente pura. O joio sempre será encontrado no meio do trigo. Hipócritas e enganadores se infiltrarão sorrateiramente. E o pior de tudo é que, se nos mostramos exageradamente zelosos em nosso esforço de obter a pureza, fazemos mais mal do que bem. Corremos o risco de encorajar muitos Judas Iscariotes e o risco de esmagar muitas “canas quebradas” (segundo a interpretação de Ryle essa expressão se refere a pessoas novas na fé,frágeis). Em nosso afã de “arrancar o joio”, corremos o risco de arrancar “também com ele o trigo”. Tal zelo não está de acordo com o entendimento, e tem, com frequência, causado muito dano. Quem não se importa com o que acontece ao trigo, contanto que possa desarraigar o joio, demonstra possuir bem pouco da mente de Cristo. Afinal de contas, há uma profunda verdade na caridosa declaração de Agostinho: “Os que hoje são joio amanhã poderão ser trigo”.
Sentimo-nos inclinados a esperar pela conversão do mundo inteiro por meio do trabalho dos missionários e ministros do evangelho? Que tenhamos essa parábola sempre diante de nós, e nos acautelemos dessa ideia! Dentro da presente ordem de coisas, jamais veremos transformados em trigo todos os habitantes da terra. O trigo e o joio continuarão a “crescer juntos até à colheita”. Os reinos deste mundo jamais se tornarão o reino de Cristo, nem o Milênio começará até que o próprio Rei retorne. Sentimo-nos perturbados pelo argumento zombeteiro dos incrédulos, de que o cristianismo não pode ser uma religião verdadeira, visto que existem tantos crentes falsos? Que tenhamos em mente essa parábola e permaneçamos inabaláveis! Digamos ao incrédulo que sua zombaria desse estado de coisas não nos surpreende, de maneira alguma. Nosso Senhor nos preparou para isso há quase dois mil anos. Ele previu e predisse que sua Igreja seria um campo contendo, não somente trigo, mas também joio. Sentimo-nos tentados a abandonar uma igreja evangélica por outra porque vemos que muitos de seus membros não são convertidos? Se for esse o caso, lembremo-nos dessa parábola e tenhamos muito cuidado com nossas atitudes. De modo algum encontraremos uma igreja perfeita. Poderíamos passar a vida inteira migrando de uma igreja para outra, sofrendo perene desapontamento. Não importa aonde formos, ou a igreja que frequentemos, sempre encontraremos o joio.
Em segundo lugar, a parábola nos ensina que haverá o dia da separação entre os membros piedosos e os membros ímpios da igreja visível, no fim do mundo. O presente estado de coisas não continuará para sempre. O trigo e o joio serão separados ao final. O Senhor Jesus “enviará seus anjos”, no dia de seu segundo advento. Eles, então, recolherão os que se professam cristãos, formando dois grupos distintos. Esses poderosos ceifeiros celestiais não se enganarão no que estiverem fazendo. Haverão de discernir, com juízo infalível, entre o justo e o ímpio, colocando cada qual em seu próprio grupo. Os santos e fiéis servos de Cristo receberão glória, honra e vida eterna. Os mundanos, os ímpios, os descuidados e os não convertidos serão lançados dentro da “fornalha acesa”, onde receberão opróbrio e eterna tribulação. Há algo de peculiarmente solene nessa parte da parábola. O significado de tais palavras não admite equívoco. Nosso Senhor fala com palavras de singular clareza, como se quisesse nos impressionar profundamente com a seriedade da questão. Ele conclui a parábola com a seguinte expressão: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Que o ímpio estremeça ao ler esta parábola! Que ele veja, por meio dessa linguagem assustadora, sua própria condenação certa, a menos que se arrependa e se converta. Compreenda que está semeando a desgraça eterna para si próprio se prosseguir em sua negligência quanto às coisas de Deus. Que ele reflita que seu destino final consistirá em ser recolhido entre os feixes de joio, a fim de ser queimado! Sem dúvida, uma perspectiva horrenda como essa deveria fazer qualquer pessoa meditar. Conforme disse Baxter: “Não devemos interpretar erroneamente a paciência de Deus para com os ímpios”. Que o crente em Cristo console-se com a leitura dessa parábola! Que entenda que há felicidade e segurança, preparadas para ele, no grande e temível dia do Senhor! A voz do arcanjo e a trombeta de Deus não haverão de aterrorizá-lo. Pelo contrário, serão uma convocação para a cena que, desde há muito, o crente deseja contemplar: uma igreja perfeita e uma perfeita comunhão dos santos. Quão lindo será o aspecto do corpo de Cristo, a Igreja, quando, afinal, tiver sido separada dos ímpios! Que bonito parecerá, então, o trigo, recolhido no “celeiro” de Deus, quando, finalmente, todo o joio tiver sido retirado do meio deles! Quão brilhantemente resplandecerá a graça divina quando não mais estiver sendo obscurecida pelo incessante contato com os mundanos e os não convertidos! Os justos são pouco conhecidos no dia de hoje. O mundo não vê neles qualquer beleza, como também não viu beleza alguma no Mestre e Senhor deles: “Por essa razão o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo” (1Jo 3.1). Porém, um dia, “os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai”. Nas palavras de Matthew Henry: “A santificação deles será perfeita e a sua justificação se tornará pública”. E também lemos em Colossenses 3.4: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com ele, em glória”.
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